Exposição

Fogo Fátuo

Sim Galeria

28/03/2013

FOGO-FÁTUO

Fogo-fátuo é um fenômeno natural de combustão de corpos. Tal efeito se explica cientificamente, mas cria relações míticas, crendices populares na interpretação do que seria esta imagem. Como alcançar a eternidade, já que a própria matéria se autodestrói. A arte dedicara-se a entender esta limitação, buscando a espiritualidade nas formas, cores, matérias. Porém, como atravessar o tempo? Esta pergunta não era propriedade da cultura material dos povos. Os indígenas produziram pinturas em objetos utilitários de cerâmica que sumiram ao entrarem em contato com o fogo. Por que pintavam se a ornamentação desapareceria? Para transcender.

Esta exposição apresenta artistas que, de formas variadas, trabalham com a relação entre corpo e luz. Cor, elementos geométricos, corpos e objetos serão apresentados como possibilidades de desfazimentos, desmaterialização, num diálogo entre arte e transcendência. Em épocas pretéritas, se acreditava na força matérica da obra de arte, na relação estrutural e estruturalista. Para tanto, não podíamos olhar a imagem, etérea, finita, como ponto de discussão. Hoje, temos a vida das imagens chegando ao mais ínfimo núcleo de matéria, nas construções digitais, tecnológicas. Sendo assim, imagem e virtualidade tornaram-se presença constantes.

Ora vemos efeitos ópticos, fluorescência, ora, a tridimensionalidade demite a mão do artesão, sendo plenamente substituída pela máquina, em mecanismos de impressão. Portanto, falar de arte é falar de corpos que aparecem ou que desfazem sua fisicalidade, como um fogo-fátuo. Mas a luz ainda guarda relações religiosas, êxtases, alucinações. Mesmo que a tecnologia tenha conseguido produzir efeitos ópticos, corpos virtuais, a mágica, a prestidigitação frequenta o imaginário de qualquer mortal.

Nesta exposição, corpo, luz, efeitos de superfícies, como nos termos de Hal Foster, serão nossos testemunhos entre o ver e o crer. Nos slides de Luiz Zerbini, a projeção da luz cria outras possibilidades de entender a própria condição da pintura, espraiando-se pela superfície da parede, atestando a presença de ondas vibrantes ou de imagens históricas. Os objetos de Rodrigo Torres criam relações de invisibilidade ao ocuparem espaços intervalares, como se buscassem um mimetismo com os ambientes. Ao mesmo tempo, a possibilidade de sair da bidimensionalidade de modo analógico, manual, com um jogo de recortar e colar aliado a programas de computação.

Na pintura de Paolo Ridolfi, a geometria e os retratos ativam repetições, adições, mas expõem as fissuras do material, a condição precária e perene dos limites da expressão, do escorrido da pincelada. Ainda assim, vemos a presença da estrutura numa lógica de grade. Em Delson Uchôa, a pintura quer ser paisagem, não como figuração, mas dialogando e se incorporando aos ambientes. A pele do suporte é corpo e luz, ativando espectros iridescentes. Em Efrain Almeida, o êxtase, a expansão do corpo diante da luz que não cabe em seu próprios limites, a desmesura. Assim, Fogo-fátuo acentua um magma, um âmbar ao avesso, que, ao condensar a matéria orgânica, explode-se em fogo e luz.

Marcelo Campos