Exposição

A Teoria do Desvio dos Raios Luminosos e Outras Histórias

SIM Galeria

15/08/2014

A Teoria do Desvio dos Raios Luminosos e Outras Histórias

Em sua Historia abreviada de la botanomancia portátil, Julia Rometti e Victor Costales apresentam, de maneira aleatória, ilustrações de fórmulas e teorias científicas sobre a reprodução de uma Monstera deliciosa, uma planta para interiores das mais difusas e banais. As imagens provêm da revista soviética Kvant, que simplificava e divulgava essas teorias para o grande público. Algumas das pinturas de Tiago Tebet incluídas na exposição, por sua vez, reproduzem de maneira bastante precisa as ilustrações que, na enciclopédia Conhecer, da editora Abril, acompanham uma descrição da vida e das descobertas de Albert Einstein. A analogia entre os trabalhos é, de certa forma, apenas casual, já que a reflexão sobre a maneira como conhecimentos científicos, populares e até esotéricos se transmitem e se relacionam é central no trabalho de Rometti e Costales, ao passo que o interesse de Tiago pela teoria do desvio dos raios luminosos, por exemplo, é essencialmente visual e formal. Por outro lado, muitas das obras reunidas nesta exposição lidam, de maneira mais ou menos direta, com a transformação de teorias científicas, lendas e mitos, em sua origem sempre fantásticos e quase inconcebíveis, em histórias conhecidas, narrativas familiares que constituem parte integrante do imaginário cultural de um povo. 

Apesar de as referências literárias, filosóficas e musicais não serem quase nunca explicitadas, elas constituem um dos pilares do corpus de Cabelo, que abarca pintura, desenho, performance, escultura, instalação e vídeo, e que representa um dos esforços mais poderosos de construção de uma narrativa na recente arte brasileira. Uma narrativa sincopada e fragmentada, pouco ou nada convencional, que brota de apropriações e justaposições surpreendentes, elas também quase inconcebíveis à primeira vista, mas que acham ou criam um sentido, deixando transparecer uma lógica peculiar, profundamente distinta da que consideramos convencional e que, contudo, chegamos a reconhecer, apesar de não compreendê-la. Esse modus operandi é comparável à maneira como Dashiell Manley constrói suas pinturas e seus vídeos, por exemplo na série de trabalhos baseada na desconstrução de um dos primeiros filmes realizados (The Great Train Robbery, de 1903): as referências estão lá, presentes e contudo irreconhecíveis. Além disso, também de maneira análoga ao que acontece na obra de outros dos artistas participantes da exposição, as pinturas e os vídeos de Manley transmitem a nítida sensação de serem parte de algo muito maior, fragmentos de um universo talvez desmedido. São a pequena ponta do iceberg que, por alguma dessas leis da física que Kvant provavelmente explicou, aflora e se torna visível, mas cujo real valor reside, evidentemente, em sua parte submersa.

Os vídeos, as fotografias e as instalações recentes de Victoria Fu também constroem, em conjunto, um universo substancialmente misterioso e incompreensível, do qual o observador tem a impressão de ter sempre uma visão parcial. Nos vídeos, por exemplo, a câmara fica excessivamente perto dos objetos e das pessoas, ainda temos a sensação que o detalhe escolhido pela artista seja o menos relevante, quase a ratificar que o que nos é apresentado são algumas peças de um enorme mosaico, não uma visão de conjunto. Significativamente, em muitos casos as imagens beiram à abstração, transformando-se em campos de cor pura, uniforme. Uma cor, por outro lado, forte ou até agressiva, análoga à que domina as pinturas recentes de Rafael Alonso, nas quais a estética da contracultura hippie encontra, entre outras coisas, o “Caribe” e as “Aves do Paraíso”, como nos títulos de duas das obras aqui apresentadas. Curiosamente, dessa mistura de referências, brota uma pintura quase psicodélica, formalmente em sintonia tanto com as quase-abstrações de Victoria Fu, quanto com os diagramas científicos apropriados por Rometti e Costales, e com as esculturas surrealistas de Cabelo, demonstrando que a exposição, como a maioria dos trabalhos que a compõem, não tem propriamente um início e um fim. Ela instaura uma narrativa afásica, circular, na qual é preciso mergulhar de vez, porque, por mais que a procuremos, não encontraremos nada que se pareça com uma entrada.

Jacopo Crivelli Visconti