Exposição

LIMIAR

20/01/2015

A insistência do acaso

Um capacho, desses, feitos de retalhos, que recebem a visita inesperada na hora do apuro ou evitam que as sujeiras adentrem as casas mais simples, recebe uma incisão, um corte preciso que revela a composição matérica das suas cores em meio a tensão rompida do nylon. Suas linhas saltam aos olhos, para logo percebermos que outras foram feitas, roubando-lhe sua aparição como capacho. Um objeto estranhamente familiar, mas que não conseguimos lhe dar nome preciso parece nos sondar mais adiante. Parece um cabo de vassoura, mas sua forma é absurda. Há um volume em seu interior como se houvesse devorado algo. Ou como se fosse a iminência de um sonho, desses que não desejamos sair enquanto o mistério não for solucionado. Somos nós os devorados.

Ao contrário mas não muito longe de uma planta, que parece ter tomado para si a independência do mundo e que tenta subsistir por si mesma, sagaz em sua arquitetura cerâmica própria. Outras plantas e árvores, essas como que tendo sido flagradas em seu movimento invisível, nos dão a certeza de que podem estabelecer qualquer comunicação que não somos capazes de ouvir, apenas ver. Somos capazes de desvendar o espaço, mesmo os menores, como o da galeria, estudar suas áreas e pôr à prova a matéria de que é feita em todos os seus planos, provocando um estranho atravessamento do olhar por suas paredes. Narrativas extraordinárias geradas sobre a matéria ordinária do mundo. Mas afinal, qual é a matéria da arte? (O artista inventa a sua própria matéria, encontra o invisível do visível que lhe interessa.)

Jorge Coli, ao escrever Mistérios de um mundo sem mistérios, aponta o quão difícil é se deparar com uma inteligência que ultrapassa as delimitações do conceito e suas racionalidades. Não conseguir denominar as coisas que estão ao nosso redor gera o terreno inóspito da angústia, e o mundo, dominado pela máquina das teorias operacionais, não suporta o que não tenha passado pelo que o autor chama ainda de batismo cognitivo. É difícil aceitar que exista um pensamento que não esteja ancorado nos âmbitos do conceito e da razão. Mas o desconhecido é vasto e o acaso insistente, não sendo possível evitar os mistérios. Como conseguimos então lidar com a ordem misteriosa das coisas que nos envolve? Todo artista possui uma forma operacional de organizar a matéria e os seus conceitos, e é nessa organização que ele se depara com aquilo que não sabe, com aquilo que mobiliza seu próprio olhar.

Apreendemos a arte através das eficazes ferramentas proporcionadas pela palavra para depois voltarmos ao seu não saber mais conscientes, mas isso não basta. A arte tem o poder de penetrar o véu espesso do mistério que cerca as existências, mas para isso é preciso oferecer nosso tempo para ela, na condição atenta da escuta. Olhar a matéria da arte é olhar o alinhamento imponderável dos gestos selvagens. Algo nos escapa. Mais especificamente, a obra de arte mantém a apreensão dos nossos sentidos porque não se esgota em oferecer outra espécie de racionalidade, na sua imanência que nos ensina a pensar. É inevitável: trabalhos de arte nos ensinam a pensar, mesmo que seja sobre o pensamento inominável da intuição. 

O conglomerado de artistas aqui reunidos se encontram num arquipélago* formado por seus próprios trabalhos, resultado de pesquisas aprofundadas que vêm desestabilizando a própria ideia de linguagem, sem perder de vista seus conceitos e sua história, encontrando nos rudimentos do acaso o limiar dos mistérios que nos ensinam a olhar incessantemente o mundo através do terreno inóspito da arte. 

Arthur do Carmo

jan./2015

COLI, Jorge. Mistérios de um mundo sem mistérios. In: NOVAES, Adauto [Org.]. Mutações: a experiência do pensamento. São Paulo, Edições SESC SP, 2010, p. 279-288.  

 * A ideia de trabalhos de arte que se aproximam uns dos outros como um arquipélago foi trazida do pensamento de Agnaldo Farias que utiliza tal metáfora para contextualizar um corpo de trabalhos da arte brasileira hoje (São Paulo, Publifolha, 2002), apontando evidentes proximidades da produção selecionada ao mesmo tempo em que ela mantém individualidades específicas de pesquisa e desenvolvimento.