Exposição

Trompe-l'oeil

SIM Galeria

09/05/2015

Trompe-l'oeil

A reunião de obras para essa exposição passa por distintos suportes e materiais mas fundamentalmente a linguagem que as atravessa é a pintura. E mais especificamente uma técnica, com truques de perspectiva, que cria uma ilusão óptica na qual o espectador se questiona sobre a qualidade do real. Sem uma data precisa para a sua origem, com aparições remotas na Grécia e Roma antigas, o trompe-l’oeil é resgatado por Rodrigo Torres.

Sistema de desinformação geográfica (2015) talvez seja a série de obras que mais provoque um ruído, para olhos mais conversadores, ao ser comparada a uma pintura. Mas percebam que além da característica ilusória de espaço e volume, o artista realiza um processo que poderíamos aproximar ao da pintura de paisagem. Ao sobrepor diversas imagens - capturadas em sites de buscas ou documentadas pelo próprio artista - de paisagens, pedras, montanhas e bairros do Rio de Janeiro, e depois colá-las, recortá-las, quase como que as esculpindo, e finalmente aplicando leves retoques, Torres não só cria volume e textura para a “pintura de paisagem” mas cria uma experiência óptica que nos embaralha ao apontar definitivamente a proporção e a altura daquelas elevações. Por ora, estas nos parecem mais altas do que realmente são e em outros momentos refletem uma topografia que corresponderia, guardadas as proporções de escala, ao mundo real. O sequenciamento dos cortes na superfície do material cria camadas ou ondas que variam dependendo da profundidade e localização do corte, constituindo sua própria dinâmica. Seus relevos, escalas e dimensões variam entre a ficção e o real sempre se apoiando na forma em como experimentamos esse jogo óptico. O artista consegue realizar a passagem do plano ao espaço mas acima disso colocando em dúvida as qualidades topográficas do espaço.

A série Esquecidos (2014) abre um outro direcionamento nesse diálogo constante de Rodrigo Torres com a pintura. Aqui é a natureza-morta posta em questão. Objetos ordinários ou que compõem a rotina do artista em seu ateliê são desenhados, com giz pastel e lápis de cor, em placas de vidro. Aproximando-se da técnica renascentista do sfumato e levando-a a uma radicalização, o artista constrói um objeto que permanece numa zona de fronteira: ele não se faz presente de forma inteiriça, porque está quase que desaparecendo sob uma neblina. Não se consegue perceber as linhas e bordas do desenho já que o artista usa suaves diferenças entre as tonalidades. Esta série derivou a instalação Entulho (2015)que está sendo apresentada pela primeira vez. Os desenhos em vidro de uma lata de tinta, uma pá, uma lata de cola, tijolos e uma extensão elétrica estão colocados lado a lado. Contudo, as placas de vidro que servem como suporte dos desenhos estão quebradas e parte delas foram postas na frente das obras criando uma ilusão de profundidade e virtualidade que se conecta ao Sistema de desinformação geográfica. Um riso é despertado no encontro com essas obras pois Torres dessacraliza condições muito próprias e portanto históricas da pintura. Longe de ser ingênuo, o artista não está criando truques ou um modelo fácil de produção mas refletindo sobre o estado contemporâneo da pintura. Guardadas suas especificidades, há proximidades com os Balloon Dogs (1994-2000) de Jeff Koons ou quaisquer dos seus objetos banais que nos parecem ser feitos a partir de um material flexível mas são na realidade produzidos em aço. A maior diferença entre os dois artistas, é que o riso provocado por Koons é de desapontamento, e o de Torres é celebratório.

Ainda no terreno das investigações sobre a história da pintura, Amador (2014) reflete sobre a camuflagem, conceito também presente na obra de Torres. Uma folha de cartolina usada para avisos está dobrada e com os adesivos que a sustentam aparentes. Pura ficção. Trata-se de uma folha de alumínio. Mais uma vez se coloca a perspectiva da ilusão como ponto de partida para a sua obra. Dialogando com a arte Pop e os neodadaístas, especialmente as Combine paintings (c. 1953-61) de Robert Rauschenberg, Torres alonga a crise da representação na pintura. Se nas Combines toda a sorte de materiais (aço, madeira, alumínio, tinta a óleo, lata de tinta, areia, papelão e até um bode empalhado), muitos encontrados nas ruas, foi empregada sobre a tela impulsionando um questionamento sobre o que poderia ser qualificado como cor, forma, volume e textura assim como ampliando a discussão sobre a pintura para uma técnica que também se faz no espaço, Torres persiste nessa pesquisa de experimentação de meios que pode ser confundida como uma “tradição da vanguarda”, pois a produção do pós-guerra se deparou constantemente em articular o mundo ordinário, o cotidiano, em suma, a vida ao fenômeno da arte. Estou trazendo para essa discussão não só Amador mas também as séries Qualquer lixo (2014) e Widescreen (2015) pois todas tratam de qualidades da pintura contemporânea: são obras permeada de erros, imperfeições e falsidades, já que as confundimos com o mais banal dos objetos e duvidamos do que está diante de nós. Widescreen ainda possui uma particularidade pois sua forma próxima a de uma tela de plasma também pode se associar a janela renascentista, outra referência à pintura. Portanto, essas obras configuram-se como enigmas, problemas e são ações que disseminam a pintura pelo espaço, revelam sua qualidade ilusória e fundamentalmente a sua capacidade de constante renovação.



Felipe Scovino